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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2005
DOCLISBOA 2005 - 1ª parte: O PERÍODO PESEIRO

A Perca do Nilo, um peixe de grandes dimensões (e com muita carne) que se pode encontrar no Lago Vitória, é a maior exportação da Tanzânia para a União Europeia. Todo o negócio à volta dela, na pesca, na indústria transformadora, na sua exportação, criou milhares de postos de trabalho, um verdadeiro oásis numa região tão pobre do mundo como é a região dos Grandes Lagos, na África Oriental.


A Perca do Nilo, que é um peixe carnívoro, até meados dos anos 60 não existia no Lago Vitória. Foi lá colocada pelo homem, no âmbito de uma "experiência cientifica" desenvolvida por um qualquer colono da altura. Desenvolveu-se muito bem naquele ambiente, alimentando-se das outras centenas de espécies de peixes que habitavam o lago e que hoje se encontram extintas. Espécies que não tinham o mesmo potencial económico mas que alimentavam a população local e eram vitais para a manutenção do equilíbrio ecológico do Lago, que neste momento está a morrer.


Das Percas do Nilo pescadas no Lago Vitória só as cabeças e as espinhas são consumidas pelas populações locais. Tudo o resto é exportado para o 1º Mundo (Todos os dias 2 milhões de brancos comem uma perca pescada no Lago Vitória. Eu hoje ao almoço comi perca grelhada.). O peixe pescado no Lago Vitoria tornou-se um bem demasiado caro para aqueles que o pescam.


O documentário "Darwin's Nightmare" de Hubert Sauper é sobre isto tudo. Sobre as teias que esta indústria tece, sobre as suas relações com a comunidade que a acolhe, sobre as pessoas que dela vivem, dos pescadores aos donos das indústrias transformadoras, dos pilotos que vêm da Europa para buscar o peixe às prostituas que os entretêm enquanto lá estão à espera.


Tenta também ser um documentário sobre África e os problemas que o afligem, a miséria, a fome, a SIDA, a guerra e o tráfico de armas. Mas é, acima de tudo, um documentário sobre a complexidade da globalização, que, tal como a Perca do Nilo, ao mesmo tempo origina riqueza para uma região e lhe destrói a sua fonte de riqueza, cria emprego para as populações locais e interdita-lhes o acesso ao alimento que o Lago desde sempre lhes proporcionou.


É uma obra bem conseguida, principalmente na forma como vai expondo todas estas realidades contraditórias sem nunca impor, pelo menos de uma forma ostensiva ou panfletária, uma qualquer mensagem predeterminada, mostrando as realidades que filma com a complexidade que de facto têm, não reduzindo tudo a uma simples denúncia dos malefícios da globalização.


Mas o DocLisboa já havia começado antes, com "Rize" de David LaChapelle, documentário sobre um novo estilo de dança, o "krumping" (e o seu antecessor o "clowning"), surgidos nos ghettos de LA e que se apresentam, mais do que como uma simples dança, como um novo movimento de cultura urbana, que é inclusive utilizado como uma arma contra a cultura dos gangs (como diz a mãe de um praticante "Prefiro que o meu filho seja um clown do que membro de um gang").


Excelente enquanto documento de um movimento ainda em fase de criação ("Se estás um dia sem praticar ficas completamente fora, quando voltas os passos já são outros" diz alguém durante o documentário), não tão bom quando daí sai e tenta um retrato mais abrangente da comunidade urbana onde este movimento se desenvolve.

Depois seguiu-se "Liberia: an Uncivil War" de Jonhathan Stack. Projecto basicamente jornalístico, segue os acontecimentos da última guerra civil na Libéria, em 2003, e mais concretamente a tentativa das tropas rebeldes em invadir a capital, Monrovia, cruzando as imagens dessa batalha (e dos momentos que a antecedem) com uma análise da evolução histórica do país e da sua relação com os Estados Unidos. O seu particular interesse surge do facto deste documentário ser co-realizado por outro jornalista, que estava nesse mesmo período a acompanhar (e a filmar) o avanço das tropas rebeldes, permitindo assim a visão do outro lado, visão que se torna especialmente relevante pois, durante o conflito, (e como normalmente acontece em conflitos deste género), as únicas imagens que saíram para o exterior vieram de jornalistas que cobriam o conflito a partir da capital.


Uma grande reportagem sobre um conflito que ocupou os media internacionais há 2 anos atrás e que entretanto caiu no esquecimento e com o extra de permitir espreitar para o interior de um movimento de guerrilha em acção.


O primeiro dia acabou com "Massaker" de M. Borgmann, L. Slim e H. Theissen, documento fortíssimo sobre o massacre ocorrido nos campos de refugiados (palestinianos) de Sabra e Chatila, perpetrado pelas milícias cristãs (com apoio do exército israelita), durante a guerra civil do Líbano.


Assente exclusivamente sobre as declarações dos próprios executantes do massacre, este documentário não mostra nada dos acontecimentos propriamente ditos (não existem imagens de arquivo, só são mostradas algumas fotos pelo próprios depoentes, apresentadas por eles no decorrer da sua narrativa), o que de facto vemos durante todo o filme são os corpos dos depoentes, (os rostos ficam sempre na sombra), enquanto narram os acontecimentos. E o que fica deste documentário é precisamente isso, a narração de um massacre. Num tom informal, contam como se preparam para a matança, como a planearam, como mataram (um deles conta como em vez de disparar sobre as suas vítimas, esfaqueava-as, porque com um tiro só se morre uma vez, com uma faca morre-se duas, três, quatro vezes). E mais do que os horrores descritos, o que assusta principalmente é a banalidade como o massacre é descrito pelo seus executantes.


Um documentário impressionante, por isto tudo mas também pela forma como é construído, de como consegue criar um efeito de choque no espectador sem recorrer a imagens, utilizando a banda sonora, a iluminação, os cenários (quartos vazios, escuros, decrépitos, especialmente preparados para as filmagens) como suporte da narração e através deles criando um ambiente verdadeiramente opressivo. Se não deixa de ser verdade que "uma imagem vale 1000 palavras", a verdade é que o que este documentário consegue mostrar vai muito além do que qualquer imagem do massacre conseguiria.


Abordagem completamente diferente tem "Srebrenica: A Cry From the Grave" de Leslie Woodhead. Debruçando-se sobre outro massacre perpetrado sobre uma população civil, neste caso pelas tropas bósnias-sérvias sobre a população muçulmana na cidade de Srebrenica em 1995, este documentário assenta nas imagens do massacre captadas por diferentes fontes (como é dito no documentário: "Srebrenica foi um massacre gravado em Camcorder"), permitindo fazer quase um acompanhamento da evolução do massacre minuto a minuto. Assente num estrutura jornalística, impõe-se de facto pela força das imagens. Igualmente impressionante.


Seguiu-se "The Shape of the Moon" de Leonard Helmrich, documentário que acompanha a vida de uma família indonésia dos bairros de lata de Jakarta e a mudança da sua matriarca para a sua aldeia natal, mostrando-nos uma série de episódios vividos pelos seus membros, com especial destaque para a mãe e o filho mais novo (imaginem um daqueles pintas dos Anjos, mas indonésio). O forte deste documentário é precisamente as suas personagens, mas o filme nunca consegue fazer ultrapassar a sensação de que nos está unicamente a mostrar uma série de situações e personagens exóticas. Ainda assim interessante e bastante divertido.


Depois, bem, depois vieram mais 90 minutos de miséria, um golo sofrido, nenhum marcado, assobios e lenços brancos e o que se adivinhava (e veio a confirmar-se) ser o opus final de um homem que até era boa pessoa mas não dava conta do recado.




por Sérgio




realizado por Rita às 18:32
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